SerformanceP

10ª edição

SerformanceP 2026 Curadoria

As lentes da curadoria

A curadoria de 2026 cruza o histórico dos lugares que recebem a Mostra e os temas recorrentes nas inscrições dos artistas. A partir dessa leitura, propõe três lentes para o público observar as obras, a cidade e o tempo.

Curador
Isaac Trabuco
Lentes da edição
3 lentes

Comecemos pelo básico: tudo o que vivemos e captamos do mundo é mediado por nossa própria subjetividade. É por isso que um mesmo objeto pode despertar emoções diferentes a depender de quem se relaciona com ele.

Na obra La trahison des images (1929), René Magritte joga com a relação entre objeto e a sua representação. Ao inserir o aviso em francês “Isto não é um cachimbo” logo abaixo da imagem de um cachimbo, o artista nos lembra que nem tudo que vemos é o objeto em si.

Pintura de René Magritte: um cachimbo sobre fundo claro e, abaixo dele, a frase em francês “Ceci n’est pas une pipe.”
René Magritte, La trahison des images (1929), Los Angeles County Museum of Art. Foto: Caterpillar84, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Em O poder simbólico (1989), Pierre Bourdieu amplia essa perspectiva para demonstrar como essa característica humana é manipulada para garantir poder e consenso. O que nós, coletivamente, vivemos na cultura, na cidade, na mídia é uma construção de sentido a serviço de interesses de quem está no controle.

Portanto, é possível encarar a vida cotidiana como um sistema de representações que não é neutro. Em uma grande metrópole como São Paulo, com um ritmo acelerado e imerso em telas e distrações, é muito fácil entrar no automático e não perceber o nosso papel nesta relação de poder.

Stuart Hall, no ensaio Codificação/decodificação (1973), questionou a teoria de que as massas podem ser manipuladas uniformemente. Ele busca enfatizar o papel da subjetividade na interpretação das imagens veiculadas pela mídia e devolver, a cada pessoa, o poder de reagir de forma diferente às mensagens que nos chegam cotidianamente.

É nessa chave que a SerformanceP ativa a arte da performance e convida o público a reavaliar a sua vivência, tanto no território (na cidade) quanto no tempo (na pós-modernidade). Estar consciente sobre sua presença no aqui e no agora pode dar mais chances dos indivíduos fazerem escolhas condizentes com suas próprias convicções.

A performance art ativa o cotidiano

A performance art é uma linguagem em que os artistas ativam os próprios corpos para criar a obra. Diferentemente da pintura, escultura e videoarte, em que a obra artística é produzida e entregue em materiais e suportes apartados, na performance art, a obra acontece com e no corpo do artista.

Ao fazer isso, o público é convidado a se ver refletido na ação/obra que acontece diante de si. Frequentemente, gestos cotidianos são subvertidos para denunciar, criticar ou contrapor relações e estruturas de poder contemporâneas.

Williana Silva sentada na calçada entre bacias de metal, sob varais de tecidos escritos à mão, numa esquina de Heliópolis
Williana Silva performa a obra Mira na SerformanceP 2024. Foto: SerformanceP

Em Mira, a artista performa uma ação de denúncia sobre a violência patriarcal no Brasil. Sentada no chão, Williana lava seus pés com sangue de uma bacia, cercada por facas, e estende tecidos com dados sobre feminicídios e outras violências contra mulheres. O ato transforma um ritual cotidiano em uma denúncia poderosa das opressões coloniais e patriarcais, expondo o impacto brutal dessas violências no corpo feminino.

A criação das lentes

Para construir a programação, a curadoria observa dois tipos de sinais: as histórias e os conflitos dos lugares que recebem a Mostra e os temas recorrentes nas propostas de apresentações enviadas por artistas de diferentes países. O encontro dessas leituras ajuda a construir a curadoria de cada edição.

Leitura 1

Locais que abrigam a Mostra

genius loci, o espírito do lugar

Centro, Paraíso e Paraisópolis

Leitura 2

Inscrições dos artistas

zeitgeist, o espírito do tempo

73 propostas de artistas de diferentes países

  1. Poder em transformação
  2. Leitura de corpos
  3. Ritos de passagem
Lentes para ajudar o público a apreciar a programação

Uma pré-leitura dos lugares

Antes de selecionar as obras, a curadoria faz uma leitura prévia de cada lugar que recebe a Mostra.

Todo território tem uma história, conflitos e narrativas diferentes que influenciam seu presente e seu futuro. Essas narrativas ajudam a entender como as pessoas vivem, ocupam e transformam cada lugar.

Essa primeira leitura considera o genius loci, uma expressão em latim que significa “espírito do lugar”. É a identidade própria de cada território, formada por sua história, suas relações sociais e suas características culturais.

A curadoria de 2026 parte de três lugares de São Paulo. Cada um tem uma história, uma dinâmica urbana e questões próprias. As palavras-chave abaixo mostram os temas identificados pela pesquisa curatorial em cada território.

Essas palavras não definem nem limitam os lugares. Elas indicam questões que ajudam a orientar o diálogo entre as obras, os artistas e cada território.

Pátio Metrô São Bento

Centro histórico​5 de dezembro

Localizado no Largo São Bento, junto à estação São Bento do metrô e próximo ao Mosteiro de São Bento, este espaço está ligado à história do hip-hop brasileiro e à circulação de pessoas pelo centro histórico.

Palavras-chave

  • berço do hip-hop no Brasil
  • cultura de rua
  • centro histórico
  • fluxo e passagem

Centro Cultural São Paulo (CCSP)

Região do Paraíso​11 e 13 de dezembro

Um centro cultural público localizado próximo à estação Vergueiro do metrô e ao eixo cultural da Avenida Paulista. É um espaço de encontro entre instituições culturais, artistas independentes e diferentes públicos da cidade.

Palavras-chave

  • estrutura institucional
  • cultura pública
  • coletivos independentes
  • acesso a serviços e infraestrutura urbana

Studio Desenrole

Paraisópolis​12 de dezembro

Espaço cultural localizado em Paraisópolis, território na zona sul de São Paulo prestes a passar por um dos maiores projetos de reurbanização da história. A leitura curatorial considera a cultura comunitária e as contradições de uma cidade marcada por grandes diferenças socioeconômicas.

Palavras-chave

  • estética hip-hop
  • cultura comunitária
  • grande reurbanização
  • topo do PIB e base da pirâmide socioeconômica

Os sinais enviados pelos artistas

A segunda leitura da curadoria começa com as propostas enviadas por artistas de diferentes países.

Quando artistas com experiências e trajetórias muito diferentes abordam os mesmos assuntos, esses temas podem revelar questões importantes do presente. Essa ideia está ligada ao zeitgeist, expressão alemã que significa “espírito do tempo”.

Na análise das 73 inscrições, estes foram os temas mais citados:

Temas mais citados nas 73 inscriçõesNúmero de menções
  1. Corpo44 menções
  2. Transformação21 menções
  3. Tempo18 menções
  4. Território17 menções
  5. Natureza16 menções
  6. Ritual e sagrado16 menções
  7. Voz e silêncio15 menções
  8. Identidade14 menções
  9. Gênero14 menções
  10. Memória13 menções
  11. Migração e fronteira12 menções
  12. Resistência10 menções

Essas recorrências ajudam a curadoria a identificar preocupações que atravessam diferentes contextos culturais e geográficos. A Mostra transforma esses sinais em pontos de partida para pensar a arte e o mundo em 2026.

As lentes da curadoria 2026

A curadoria de 2026 organiza sua leitura em três lentes. Cada uma propõe uma maneira de observar as obras e suas relações com o mundo. Qualquer lente pode ser aplicada a qualquer obra. Elas não são rótulos nem interpretações definitivas, mas convites para descobrir novas possibilidades de leitura.

Poder em transformação

Novas forças e tecnologias estão mudando quem permanece, quem parte e quem toma decisões. Esta lente investiga como o poder se distribui, se concentra e como suas estruturas podem ser transformadas.

Leitura de corpos

O corpo registra questões contemporâneas relacionadas à maternidade, ao desejo, ao afeto e à resistência. Esta lente observa como experiências pessoais e coletivas se expressam nos corpos.

Ritos de passagem

Paisagens, travessias e fronteiras podem marcar mudanças de vida, deslocamentos e encontros com o sagrado. Esta lente investiga como atravessar limites pode abrir novos caminhos no cotidiano.

Um convite: assista à videoperformance de Reiko Shimizu e observe como diferentes dimensões da obra são realçadas a depender da lente que você aplica sobre ela.

Prece, de Reiko Shimizu

Videoperformance · São José dos Campos, SP · SerformanceP 2026

Assistir no Google Drive Ver a obra

Artistas em diálogo com os territórios

Os artistas são convidados a dialogar com as narrativas identificadas pela curadoria.

As lentes não determinam o significado das obras nem estabelecem uma única maneira de interpretá-las. Elas funcionam como pontos de partida para a pesquisa e a criação.

Cada artista leva sua própria pesquisa ao território e decide como se relacionar com ele. O encontro entre a experiência do artista, as questões do lugar e os temas do presente pode gerar novas leituras.

Um convite ao público

A SerformanceP convida o público a sair do piloto automático e perceber a cidade e o tempo de outra maneira, com o apoio da arte.

A 10ª Mostra Internacional de Performance Art em São Paulo acontece nos dias 5, 11, 12 e 13 de dezembro de 2026, com atividades no Centro, na região do Paraíso, em Paraisópolis e também online.

A entrada é gratuita.

Venha observar os lugares que fazem parte da cidade, encontrar outras perspectivas e descobrir como a performance art pode transformar nossa percepção do cotidiano.

SerformanceP 2026 — 10ª Mostra Internacional de Performance Art em São Paulo

Datas: 5, 11, 12 e 13 de dezembro de 2026.

Locais:
5 de dezembro — Pátio Metrô São Bento, no Centro.
11 e 13 de dezembro — Centro Cultural São Paulo, na região do Paraíso.
12 de dezembro — Studio Desenrole, em Paraisópolis.
13 de dezembro — programação online.

Entrada gratuita.

A programação reúne diferentes formas de performance art e aproxima artistas, comunidades, instituições culturais e públicos de diferentes lugares do mundo.

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